ONU. Violência contra as mulheres tornou-se "emergência global"

ONU. Violência contra as mulheres tornou-se "emergência global"

A violência contra as mulheres tornou-se uma "emergência global", alerta o alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, lamentando em particular os abusos revelados em casos como o de Gisèle Pelicot, em França, e o do pedófilo norte-americano Jeffrey Epstein.

Mariana Ribeiro Soares - RTP /
Valentin Flauraud - EPA

"A violência contra as mulheres, incluindo o femicídio, é uma emergência global”, afirmou Volker Türk, avançando que cerca de 50 mil mulheres e raparigas foram assassinadas em todo o mundo em 2024, a maioria delas por membros das suas próprias famílias.

No seu discurso sobre a situação dos Direitos Humanos no mundo, perante o Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, esta sexta-feira, Türk lamentou, em particular, os casos de abusos como o de Gisèle Pelicot, em França, e o do pedófilo norte-americano Jeffrey Epstein. O caso de Pelicot ficou conhecido mundialmente. A francesa de 71 anos foi drogada e violada por dezenas de homens desconhecidos recrutados pelo ex-marido ao longo de uma década.

“Tanto o caso Pelicot como os arquivos Epstein demonstram a extensão da exploração e do abuso de mulheres e raparigas. Alguém acredita que não existem muitos outros homens como Dominique Pellicot ou Jeffrey Epstein? Estes abusos horríveis são facilitados por sistemas sociais que silenciam as mulheres e as raparigas e protegem os homens poderosos da responsabilização”, disse Türk.

“As mulheres e as raparigas enfrentam ameaças cada vez maiores aos seus direitos”, alertou, instando os países a investigar “todos os alegados crimes, proteger as sobreviventes e garantir justiça sem medo ou favorecimento”.

No seu discurso, o alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos manifestou preocupação com a normalização do uso da força para resolver conflitos em todo o mundo, alertando que os conflitos estão a criar um verdadeiro "deserto dos Direitos Humanos".

"Não devemos regressar à violência como base para a organização do mundo", exortou Türk, alertando que “o uso da força, tanto através de ameaças como pelo uso eficaz, para resolver conflitos está a tornar-se cada vez mais frequente e comum".

“O mundo está realmente a tornar-se um lugar mais perigoso", disse, afirmando que o número de conflitos armados quase duplicou desde 2010, para cerca de 60.

Türk condenou a aparente indiferença pelas violações do Direito Internacional, salientando que, há dez anos, "um ataque a um hospital teria provocado uma onda de indignação global, mas dados recentes mostram que há agora, em média, dez ataques por dia a instalações de saúde".

"A conclusão é clara: ignorar as atrocidades só alimenta os massacres", alertou. "O mundo não pode ficar de braços cruzados enquanto o edifício do Direito Internacional Humanitário e dos Direitos Humanos se desmorona diante dos nossos olhos", rematou.

“Os autoritários tentam convencer as pessoas de que são impotentes, mas os direitos humanos lembram-nos que não o somos”, escreveu Türk na rede social X.
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